Incêndios em Portugal, Junho 2017

A equipa da Terracrua lamenta profundamente os trágicos acontecimentos nas “florestas” Portuguesas, as perdas humanas e ecológicas; e as repercussões óbvias que frequentemente tomam lugar após os fogos rurais, como perda de biodiversidade, erosão, abandono e êxodo rural.

Todos conhecemos o problema, que já é uma rotina nacional todos os anos, e assistimos chocados pela inércia das nossas entidades na manutenção dos espaços florestais, prevenção e combate aos incêndios. Por outro lado, as produções em monocultura de pinheiro bravo e eucalipto em terrenos de declive acentuado, criam as circunstancias para que os incêndios ganhem proporções épicas que excluem qualquer hipótese de combate pelos populares. A falta de animais de porte médio em regime selvagem, ou gado correctamente gerido nestas serras, fazem também com que a biomassa no chão não seja processada, e impede a floresta de subir e reduzir a força do fogo ao nível dos solos. Os ciclos estão quebrados, os solos não têm capacidade de processar a biomassa, e a seca generalizada fazem com que nada trave as chamas.

As soluções passam por exemplo, pela manutenção dos espaços rurais, e pela criação de modelos exequíveis de comunidades agro-florestais que tirem retorno financeiro da gestão florestal, de modo a fixarmos de novo população no interior, e de forma a mitigarmos tragédias do género da que está neste momento a a acontecer na zona de Pedrógão Grande. Florestas mistas enquadradas na paisagem, valorizadas pela qualidade e não pela quantidade, e a responsabilização daqueles que facturam com estes acontecimentos frequentes, podem reverter este processo, do qual somos todos reféns.

Fica aqui o apelo/desafio: Há que repensar toda a industria relacionada com a produção de pinheiro bravo e eucalipto, há que contemplar fixar pessoas em sistemas de gestão florestal, antes que fiquemos sem ecossistemas saudáveis, para além das habituais plantações de monoculturas.

Um abraço forte e solidário com todas as pessoas que perderam familiares nestes incêndios desde sábado, e a todos os que perderam a sua casa e os seus pertences.

http://fatoonline.com.br/noticia/20167/portugal-diz-que-incendio-em-pedrogao-grande-esta-quase-controlado

Hidratação da paisagem

No seguimento do precedente artigo sobre os solos, continuamos, no mesmo contexto, esta vez na óptica da hidratação da paisagem. Esta, por ser um parâmetro interligado com outros factores, requer um planeamento adequado afins de minimizar despesas energéticas, financeiras e fomentar um ciclo hidrológico equilibrado.
Iremos prevenir incêndios, apoiar produções agrícolas, ou abastecer o uso doméstico e melhorar o equilíbrio paisagístico e ecológico.

loess plateau
Quando falamos de (re)hidratar a paisagem, no fundo, entendemos criar paisagens que, no futuro, se hidratem “sozinhas”; Isto passa pela concepção, o planeamento de movimentações de terra, edificações e infraestruturas de base, no âmbito de criar um ecossistema o mais autónomo possível.

Em prioridade ao estabelecimento de qualquer projecto, o design hídrico, ou seja o planeamento da gestão da água/das precipitações baseado num simples estudo da hidrologia do local, é um dos primeiros elementos a contemplar e implementar.

O que se faz geralmente, sistematicamente, é dirigir a água de chuva para fora do terreno, da forma mais rápida possível. Em paralelo, consome-se água da rede, ou de furos.

A nossa abordagem é diferente, e até quase oposta, criaremos modelos e sistemas de recolha dessas águas, porque é um recurso renovável, porque deixamos de pagar essa água e por fim, porque a água proveniente de furos em aquíferos, não é propriamente renovável, há de acabar um dia, uma vez que cada vez menos água se infiltra nos solos, como explicado no artigo anterior.

Assim, os obbjectivos de base para a gestão da água são simples :

TRAVAR E REDUZIR A VELOCIDADE

CAPTAR E ARMAZENAR

ESPALHAR E INFILTRAR

INTERVENÇÕES DE TERRENOTravar e reduzir a velocidade, captar e dirigir.
O objectivo subjacente a qualquer intervenção de terreno, deve ir no sentido da criação de alianças entre a topografia e os ciclos e dinâmica hidrológica.

Para a construção de ESTRADAS E ACESSOS : devem ser determinadas de maneira a coincidir com a topografia, por um lado, e para tornarem-se multi-funcionais por outro lado. Alinhar estradas com a topografia e de forma a interligarem-se com pontos de recolha das escorrências superficiais, é possível ser feito com um esforço mínimo. Desse modo, armazenamos a água ao mesmo tempo que a conduzimos para fora da estrada, reduzindo os danos viários causados pelas chuvas.

No caso das TERRAÇAS agrícolas : idealmente, para maximizar a infiltração da água (chuva ou rega), para além da gestão da biomassa, a sua implementação deve seguir um desenho onde a inclinação (interna) será relativa à questão das escorrências superficiais, esta, baseada no sistema key-line, adaptado ao caso das terraças, dirigindo mais uma vez a água para pontos de armazenamento.

No caso das zonas de PRODUÇÃO agrícolas, pecuárias e florestais, como nas zonas menos utilizadas da propriedade : adaptar as plantações ao terreno, não o contrário, fomentar ou escolher igualmente plantações herbáceas que agilizam a permeabilidade do solo e a sua estrutura, e que beneficiem as produções.


GESTÃO DO SOLO E DA BIOMASSAEspalhar e infiltrar. 
Tudo se transforma.

Diversas acções e técnicas de GESTÃO DOS SOLOS AGRÍCOLAS favorecem ou não a estrutura do solo. Por norma, iremos evitar lavouras, contudo, os trabalhos de tractor são muitas vezes úteis e relevantes, enquanto transição ou numa óptica de aceleração dos processos de regeneração ecológica, na medida em que a acção de lavoura serve de meio para implementação de sementeiras de plantas herbáceas específicas, que serão escolhidas em função das características das suas raízes, estruturadoras para o solo, fixadoras de azoto, permitindo cobertura do solo, maximização da taxa de infiltração, e produção de biomassa.

 As raízes densas e finas de certas plantas herbáceas agem como estruturadoras de solo, mas não só. A sua capacidade de armazenamento da água (esponja) é também essencial, e, por mais admirável, é multiplicada quando podada (na altura certa).

As raízes densas e finas de certas plantas herbáceas agem como estruturadoras de solo, mas não só. A sua capacidade de armazenamento da água (esponja) é também essencial, e, por mais admirável, é multiplicada quando podada (na altura certa).

A biomassa vegetal age ainda como:
-Esponja
-Fertilizante (fonte de nutrientes)
-Estruturadora de solo pelas suas características mecânicas;

Quanto à gestão dessa BIOMASSA produzida, trata-se de acelerar a “sucessão natural”. O truque, é que nem sempre a restauração de ecossistemas equilibrados passa pela plantação de árvores. Herbáceas, arbustos, trepadeiras,… produzem imensa biomassa, e o seu corte bem sequenciado favorece a produção de raízes mais profundas. Deixando a biomassa no local (corticai ou chop and drop), esta vai servir de mulch (cobertura de solo) antes de servir de adubo verde para a vegetação existente, seja ela de ornamento, selvagem ou agrícola.


Todas estas medidas servem o propósito de tornar os solos mais permeáveis à água, de reterem mais e durante mais tempo a humidade, e, no caso das técnicas de condução da água via valas inclinadas ao longo das estradas e dos terraços agrícolas, que são as nossas estrelas, de criar

Pontos de água multi-funcionais que servem para  :

1.Manutenção per se ou espontânea das estradas;

2. Armazenamento;

3. Abastecimento de culturas a justante;

4. Infiltração progressiva da água (ou não, de pendendo dos objectivos) no local;

5. Benefício para a flora selvagem;

6. Zona de banhos e recreação

7. etc,.

 

Neste artigo não iremos detalhar métodos de GESTÃO DO GADO no âmbito da hidratação da paisagem, embora seja um temática que nos é cara. Iremos aprofundar o tema posteriormente, fique atento!

Cascatas tróficas – O caso das baleias

Embora pareça não fazer sentido, porque as baleias alimentam-se de krill e de peixe, observa-se que à medida que as baleias desaparecem, também diminuem os números de peixe e de krill… 

A verdade é que… (estamos fartos de ouvir falar de baleias?) as baleias contribuem em manter o ecossistema oceânico em equilíbrio…

Resumidamente, esta cascata “começa” no sítio mais baixo, como de cost(r)ume, ou seja, nas próprias fezes das baleias. Estas são libertadas em quantidades enormes à superfície do oceano, disponibilizando desse modo nutrientes tais como o azoto e o ferro para o fitoplâncton, que se delicia com esta matéria.
O fitoplâncton, por sua vez será a base alimentar do krill, que alimenta diversas baleias e peixes, que irão eventualmente alimentar ursos, humanos, lobos, águias, e ! florestas

Sem mais demoras, convido-vos a visualizar este curto mas esclarecedor filme que resume bem o papel ou algumas funções das baleias nos ecossistemas oceânicos (e terrestres também no final das contas); Narrado por George Monbiot -em inglês.

Bem haja!

 

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Gestão Holística do gado e dos pastos

A Gestão Holística do gado e dos pastos é a forma mais eficaz de resolver problemas tais como:

– Compactação dos solos;
– Exaustão dos solos;
– Desertificação e erosão agravada;
– Seca e mortalidade vegetativa;
– Dependência de rações;
– Poluição e nitrificação;
– Dominio da paisagem por “invasivas”;

A gestão holística é um sistema que foi originalmente desenvolvido por Allan Savory, e baseado no estudo das migrações dos grandes rebanhos selvagens Africanos.

Um sistema assim tem sérias vantagens:

– Hidratação da paisagem;
– “Construção” exponencial de solos;
– Mitigação da erosão;
– Maior autonomia a nivel de alimentação para o gado;
– Aumento da biodiversidade;
– Aumento da “caça”;
– Estruturação dos solos;
– Diversificação das produções;
– Aumento geral do vigor vegetativo;
– Entre tantas outras vantagens…

É uma forma diferente de olhar para os recursos e gerir a produção, numa óptica de constante regeneração ecológica. Fazendo rotações rápidas de gado de forma sequenciada, (por ex. vacas, ovelhas, galinhas), consegue-se uma pronta recuperação dos pastos, e os estrumes das diferentes espécies complementam-se e fertilizam os solos.

É particularmente interessante para proprietários de Herdades e propriedades com mais de 20ha, nomeadamente para os Montados Alentejanos.

Fica aqui a sugestão: se tem uma propriedade de montado com mais de 20ha, terras com pouco declive, que a produção de cortiça está ameaçada pelo Phytophthora, contemple implementar um sistema de gestão ecológica, com base no design keyline e na gestão holistica do gado.

Podas, desbastes e tritura!

Desbaste, podas e trituras.
Na maior parte dos projectos agrícolas actuais, a biomassa resultante de limpezas desbastes e cortes é frequentemente “exportada” pela facilidade e redução de custos. Na verdade, se fossemos a contabilizar o valor da biomassa na construção de solos e retenção de águas , ninguem o faria.
Assim, recomendamos sempre que se triture, e que se devolva a matéria aos solos, compostado, ou por compostar!

Chuva orográfica, a conexão floresta-água!

Um sistema simples que capta a água dos nevoeiros, imitando as florestas de cumeada, que quando existentes, duplicam a precipitação média, hidratam a paisagem a ajudam a recarregar os aquiferos!

 

https://www.facebook.com/bbcnews/videos/1822799784644476/

A permacultura é para todos!

A permacultura nasceu nos anos ’70 do trabalho de Bill Mollison e David Holmgren. A palavra permacultura é a combinação dos termos “cultura permanente” e “agricultura permanente”.

Perguntamo-nos todos os dias: como podemos satisfazer as nossas necessidades? A permacultura coloca uma questão mais abrangente: Como vamos satisfazer as nossas necessidades como indivíduos, famílias e comunidades, ao mesmo tempo que cuidamos da saúde da Natureza, dos seus ecosistemas e das diferentes espécies que os compõe.

A permacultura é para todos. Somos parte da solução.
Na permacultura olhamos de perto para como a Natureza funciona, estudamos as diferentes interligações e interdependências entre as plantas, árvores, insectos,
pássaros, pessoas, solos, etc.

Conhecer estas ligações permite-nos tomar decisões que melhoram a nossa qualidade de vida e a da Natureza que nos rodeia.
Nós não podemos viver neste planeta sem causar algum tipo de impacto. Consumimos recursos e produtos que vêm de longe, geramos imenso desperdício e degradamos a saúde da Natureza. A saúde dos rios e ribeiras, a saúde dos solos, das plantas, animais, e claro, a nossa saúde também.

Com a permacultura podemos optimizar o nosso impacto e alinhar a nossa criatividade com as nossas ações e regenerar a Natureza e as nossas vidas.

A permacultura ajuda-nos a perceber o problema e logo ver as possibilidades para o resolver. Com prática torna-se muito mais
fácil lidar com problemas e resolvê-los.

A permacultura é design, é engenharia, física, biologia, antropologia e arquitectura combinados num só. Obviamente não nos tornamos ‘experts’ em todos estes campos só estudando permacultura, mas é possível adquirir bases solidas nestas disciplinas ao mesmo tempo que ganhamos perspectivas de como nós seres humanos nos encaixamos neste planeta.

Com estas bases abrangentes, é possível começar a desenhar à volta das nossas necessidades da nossa vida enquanto criamos uma mudança positiva.

“A melhor maneira de prever o futuro, é desenhá-lo”
Buckminster Fuller, visionário, designer, arquitecto, inventor e escritor americano.

Paisagem, erosão e sucessão natural

A observar a paisagem e os padrões, podemos ler o que se passou e o que vai acontecer.
A paisagem foi moldada pela acção humana que a degradou de tal forma, que só juntando conhecimento, experiência e imaginação conseguimos conceber como era à 2 ou 3mil anos.

O mais frequente no nosso territorio, pátria de muitos lenhadores e poucos florestais, é observarmos a sedimentação no sopé das montanhas, provocado pela deflorestacão contínua.

Montanhas e rochas esverdeadas, fruto da colonização por parte de liquens e musgos, tal é o estágio primário a que levamos a natureza.

Ainda assim, ao compreendermos os ciclos, a sucessao natural e a erosão, é como que sabemos que nada está perdido, mas que podemos sempre auxiliar a floresta que a montanha quer ter.

O blog da equipa Terracrua!